Moradora do bairro da Aclimação há dez anos, a jornalista Giuliana Capello relata suas impressões sobre o boom imobiliário que está transformando a região.
Há dez anos, finquei endereço na Aclimação, motivada pelo clima de cidade de interior: pouco trânsito, um parque próximo à minha casa, pequenas vilas e casas ajardinadas. Na verdade, um tesouro protegido pelo relevo e ruas sinuosas, a 2 km da avenida Paulista e da praça da Sé. “A região é privilegiada por seu perfi l residencial e por oferecer acesso fácil às principais vias de São Paulo”, avalia Luiz Paulo Pompéia, diretor da Empresa Brasileira de Estudos de Patrimônio (Embraesp). Desde que me tornei moradora do bairro, perdi a conta dos prédios residenciais que vi nascer. De acordo com a Embraesp, entre janeiro de 2004 e setembro de 2009 foram lançados 29 empreendimentos. Detalhe: a Aclimação integra o distrito da Liberdade, o quinto menor da cidade, com área de apenas 3,70 km2 – um terço do Morumbi. Talvez por isso sejam evidentes os efeitos do adensamento no trânsito, na paisagem e até na fila das padarias.
Das casas aos grandes edifícios Hoje, quando caminho pelo bairro, sinto-me um pouco nostálgica. Embora os trólebus ainda circulem pela Aclimação, as antigas mansões e as casinhas geminadas estão, aos poucos, sumindo do cenário. Elas são o alvo preferido das construtoras, que compram vários imóveis contíguos, planejando obter uma área grande o bastante para erguer uma ou duas torres. “A pouca oferta de terrenos valoriza o metro quadrado, os produtos ficam mais caros e, por isso, já nascem destinados à classe média alta”, explica Luiz Paulo. O resultado é que os novos empreendimentos estão alterando o perfil (e os hábitos) dos moradores. De novo, bate a saudade da época mais bucólica da região. Coincidência ou não, com os condomínios sofisticados e cheios de segurança, as conversas entre vizinhos no portão já não são tão frequentes. Os comerciantes, por sua vez, são só sorrisos. Não por acaso, é comum ver reformas de fachadas, novos cafés, restaurantes e pet shops.
Vista para o parque O que todos os folhetos de lançamentos no bairro têm em comum? Fácil: uma foto imensa do Parque da Aclimação. Ele continua sendo o grande atrativo da região, como conta o diretor do Sindicato da Habitação (Secovi-SP), Fabio Rossi Filho. “O parque representa qualidade de vida, algo que toda família busca.” Por sua importância ambiental, a Resolução 07/2007 do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) determinou o tombamento da
área verde, restringindo a verticalização no seu entorno. Ponto para a Aclimação, que continua atraindo novos moradores... e carros. A sorte é que suas ruas mais centrais têm um traçado peculiar (já viu rua em formato de U?), que espanta motoristas de fora. Assim, o trânsito é basicamente local, porque quase ninguém usa a região como passagem para outros lugares – se bem que o aumento de veículos tornou as saídas mais lentas.
No rítmo atual de construção de prédios, as principais vias da Aclimação ficarão logo entupidas. Quem mora no bairro há dez anos já nota a grande piora do tráfego e espera de farois em ruas como a Dr. José de Queirós Aranha, Nicolau de Souza Queiros, R. do Paraíso e av. Aclimação, entre outras. Estamos seguindo o caminho de Perdizes e Pompéia, onde ninguém mais consegue sair nem entrar no bairro devido ao escalabro de verticalização que aconteceu nesses bairros.
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